sábado, 30 de dezembro de 2023

AEPL - Rumo ao futuro movendo-se por valores

 

AEPL - Rumo ao futuro movendo-se por valores

Agora que tem início a nossa participação nesta importante iniciativa que é dar “Voz às Escolas”, gostaria de começar por partilhar com os leitores algumas das características identitárias desta instituição que, com singular honra, lidero há já mais de três anos.

Como em todas as instituições, o “logotipo” procura representar, ainda que simbolicamente, essa mesma Identidade. Com efeito, o nosso aglomera um conjunto de símbolos que formam um “Coração do Minho”, homenageando uma das principais tradições da região, a arte da filigrana. Cada símbolo, ou conjunto de símbolos, pretende aludir ao conhecimento e à educação. O ᴓ faz referência ao vazio que o ensino pretende preencher. É formado pelo círculo, que simboliza a harmonia e a perfeição, usado como transferidor circular em geometria e navegação, e pela cadeia de ADN, que representa a base da vida. Este símbolo também representa um dos dígitos binários das ciências da computação. O α e Ω, primeira e última letras do alfabeto grego, representam simbolicamente o princípio e o fim. Neste contexto, são os conhecimentos, as aprendizagens e vivências que o aluno adquire na escola na primeira fase da sua existência e que os vão acompanhar para o resto da vida. As letras gregas são também frequentemente usadas para representar grandezas e constantes. Ambos formam o ∞ que representa o limite para o conhecimento: o infinito. O π, para além da sua forma que se adequa harmoniosamente à composição gráfica do coração, é o “embaixador” da Matemática. O “Coração” é completado pelo abecedário latino, ou seja a escrita, sem a qual o conhecimento não poderia ser transmitido.

Ora, a essência de uma escola é tudo o que o nosso Logo procura simbolizar: a busca incessante na construção de um “Eu” literário, científico, matemático, clássico, cibernético, mas expoente de todos estes predicados, um ser dotado de liberdade e de consciência crítica.

Com efeito, temos consciência que os resultados escolares são ainda uma espécie de “ditadura das oportunidades”! Porém, não nos envergonhamos, bem pelo contrário, que o nosso principal Pilar se ancore na construção de uma verdadeira Cidadania. Não só aquela que se ensina, mas sobretudo aquela que se pratica. E mais importante que ostentar, ainda que com orgulho, os selos de escola intercultural, escola sem bullying, a bandeira verde da sustentabilidade, a certificação EQAVET…, é constatar que os nossos alunos são cada vez mais solidários, cada vez mais inclusivos e, cada vez mais, precocemente, ativos!

E como testemunho desta realidade, omnipresente na comunidade AEPL, gostaria de partilhar com os leitores um exemplo singular deste exercício de cidadania.

Em março, de 2023 chegou à nossa escola, proveniente de um dos PALOP, o Bernardino (nome fictício), de 10 anos de idade. Bernardino tinha ficado na terra natal com o pai, quando a mãe decidiu separar-se e rumar a Portugal construindo uma nova relação com um português, mas deixando para trás o filho que, na altura, tinha apenas dois anos.

Detentora agora, de uma estabilidade familiar e económica, a mãe tenta e consegue promover o “reagrupamento maternal”. A família em Portugal passa agora a ser constituída por mãe, padrasto, Bernardino e mais duas crianças pequenas, filhas desta relação.

O Bernardino é, então, matriculado, no 1.º ano do 1.º ciclo. O processo de adaptação torna-se um verdadeiro desafio para todos, em especial, para a professora e o grupo/turma. Com efeito, dos contactos iniciais perceciona-se o quão difícil tinha sido, até então, a sua vida: 10 anos sem nunca ter frequentado uma escola; extremoso guardador de bois, qual Constantino, o de Redol, também ele guardador, mas de vacas, letárgico no processo de conhecimento das letras e dos números e, socialmente, pouco afável.

Ora, neste contexto ressalta o papel da professora. Partilha com os alunos a experiência de vida e sensibiliza o grupo para o necessário acolhimento. Os progressos foram fabulosos e seria por certo fastidioso enumerá-los. Ficam, porém, na memória de todos, a primeira solicitação para ir ao quadro escrever o respetivo nome, o deleite com que comeu o primeiro gelado, a primeira experiência a jogar matraquilhos no recreio da escola e os incontáveis momentos de enérgica alegria nos recreios. O seu rasgado sorriso passou a ser a sua imagem de marca!

Tudo corria bem até chegados a outubro de 2023. No final do dia, de uma quarta-feira, a mãe do Bernardino telefonou para a escola e informou a professora que, no dia seguinte, ele iria regressar ao seu país de origem. A professora, atónita e incrédula, quis saber a razão, e o desalento foi tão maior quando ouviu que era por o Bernardino fazer muitas asneiras em casa!

A tristeza assolou todos!… O nosso Bernardino, que tão feliz era na escola, nunca mais viria para a escola e, quase certamente, para mais nenhuma?!

Na sexta-feira seguinte, de manhã, o Bernardino surge na escola, de mochila às costas! Agarra-se, com muita força, à primeira pessoa que encontra e, entre soluços, exclama que não quer ir embora para o seu país natal! Estupefactos, tentamos perceber o que sucedera. O voo tinha sido alterado para domingo, e o Bernardino aproveitou a saída de casa da mãe e do padrasto nessa manhã, pegou na mochila, saltou pela janela e rumou ao seu porto seguro: a Escola…

Entre choros de emoção, tristeza e alegria, ouvimos o Bernardino a pedir, incessantemente, que não queria ir embora. Queria ficar na escola! E, olhando para a professora que chorava, inconsolavelmente, pedia-lhe para que não o deixassem levar.

Contactamos, de imediato as Responsáveis pela CPCJ concelhia, as quais ficaram profundamente sensibilizadas com a história e acorreram à escola para ouvir o Bernardino. Finda a audição, exclamaram: “este menino é um diamante em bruto! Temos que atuar já!”

A Procuradora do Ministério Público foi informada e imediatamente ordenou a institucionalização com carácter de urgência do menor! O Bernardino sorriu, pela primeira vez nesse dia, quando ouviu que já não teria de ir para o seu país, pois ficaria, como lhe explicamos, numa casa, em Braga, com muitos outros meninos. De imediato, perguntou: “mas venho para a escola? Eu tenho de vir para a escola!” Também isso se conseguiu, com o apoio do município, o qual se responsabilizou pelo transporte diário. Então, o sorriso do Bernardino foi gigante! Estava tão feliz, o nosso menino! E à saída, de partida para a instituição, voltado para a professora, pergunta se tem trabalhos de casa!

E todos os dias, o Bernardino vem feliz para a escola! E quis a magia desta quadra, que não o acaso, que passasse o Natal com a família da professora!

Quis, pois, com esta ilustração, mostrar o espírito de verdadeira comunidade que perpassa nesta nossa Escola. Também eu, temporariamente, no exercício de funções de liderança, sou produto dessa comunidade. Aprendi com fantásticos professores que agora tenho a honra de liderar e que, apesar da placagem do determinismo etário, continuam com estoicismo e sagacidade, a singular “arte de ensinar e de educar”!

Aprendi com as Assistentes Operacionais, a quem sempre, educadamente, chamei “Donas”, e que hoje continuam a ser as minhas, “Auxiliares de Ação Educativa”.

Não hesitei, muito antes de exercer este cargo, em ter o meu único filho a frequentar esta escola, já lá vão nove anos!

A maior gratidão é ver como pululam os nossos ex-alunos ao virem-nos, regularmente, visitar: os que regressam de férias da Suíça; os que realizam Palestras como agentes da GNR, da PSP e/ou da Polícia Judiciária; os médicos que vêm falar sobre saúde e alimentação; o atual Presidente da Câmara Municipal e uma vasta panóplia de Técnicos, parceiros imprescindíveis nos dias de hoje; os militares que nos vêm dar testemunho das suas missões patrióticas, os eletricistas e carpinteiros, que entre tantos outros operacionais, executam tarefas de beneficência no nosso parque escolar.

Por todos perpassa o mesmo sentimento: regressarem regularmente ao local que “os preparou para a vida”. Não releva se tiveram dez ou vinte valores de média! O que conta é que foi o AEPL que os ajudou a ser quem são: cidadãos ativos; consciências livres e críticas que acreditam que só a educação pode alavancar um país.

Todos rumando ao futuro e movendo-se por valores!!

Ângelo Dias