sábado, 19 de dezembro de 2020

 Eu e o Outro

O que dizem os nossos alunos sobre o relacionamento humano, interculturalidade, solidariedade, sobre a luta pelo bem comum? Foi o que quisemos saber quando, em resultado deste objetivo comum de Português e Cidadania, propusemos aos nossos alunos a produção de um texto individual em que dissertassem sobre estes tópicos.

Eis alguns bons fragmentos desses trabalhos.

Rosa Martins e Susana Lobo

 

 “Cada vez mais o mundo se mostra individualista. É cada um por si, como exemplificam os conflitos entre países, famílias, amigos…

Este mundo parece estar a tornar-se numa bomba-relógio, com tantos interesses individuais que geram conflitos.

(…) Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti! Poucas palavras da sabedoria popular, tão esquecidas mas tão importantes pela verdade que encerram! “

Catarina Soares, 11C

 

“Pelo que observo, o dinheiro move o mundo, torna as pessoas distantes, arrogantes e “torna falsos os amigos “, como lamentava Camões.

Um dos maiores equívocos que o Homem enfrenta é a noção errada de que somos protagonistas, quando temos de interiorizar que o mundo não é um filme com uma personagem principal, mas antes uma filmoteca com elencos variadíssimos, religiões, tons de pele, gastronomias, crenças, culturas distintas.

O Padre António Vieira deu-nos, no passado, o exemplo a seguir. Fez tudo para integrar o Outro, olhando-o como seu igual. Todavia, ainda hoje, infelizmente, os “peixes grandes” alimentam-se da fragilidade e ingenuidade dos “peixes pequenos”.

É importante equilibrar aquilo de que Eu e o Outro precisam. Esse equilíbrio nasce da reciprocidade e do respeito, da proximidade e intimidade, da partilha e do viver para o Outro, de um encontro entre aquilo que tenho e estou disposta a dar e do que quero e preciso receber, porque viver é ser Outro e para o Outro.

Alexandra Rebelo, 11C









Sentences about Human Rights Day

 

Last week we did some drawings about The Human Rights Day in the English classroom. It took three classes to finish the drawings, but they were amazing. It was very nice and we had a lot of fun doing them. Besides that, the importance of these work is enormous, because they are about  a very important topic: The Human Rights Day, and we think that it was a very good way to celebrate it.

 Miguel Correia 9ºD

 

Liberty is the best medicine.

Everyone has the right to vote

Always the truth

Think and believe 

                                            Eduardo Pinto 9ºD



The Human Rights Day was celebrated on 10th December, and the teacher suggested us this work.  We had to do some posters and drawings about this day and display them to all school, showing students how the Human Rights are so important.

At first the teacher showed us some videos and some drawings and sentences about the human rights for inspiration.

And then we were divided into some groups but obviously with all the care and distance among all of us. Some students made their work individually too.

Some of us made the title in cardboards with some drawings… other students made the drawings in smaller white papers and wrote an article … there were so many good ideas!!

The final product was amazing, everyone was creative and the works were all beautiful.

We enjoyed and learnt a lot in this work! The Human Rights are so important and we need to obey all of them to be good citizens and live in a healthy world!

 

Beatriz Sousa 9ºD

Constança Veloso 9ºD

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020


Desta vez, deixemo-nos visitar por Alberto Caeiro:

uma perspetiva do quotidiano sob o olhar de Caeiro.



Visão de Alberto Caeiro da atualidade

Meus caros amigos, vendo o Portugal que agora nos rodeia assim como o resto do mundo, fico com saudades do século passado.

Onde estão as florestas de árvores sem fim, os campos verdejantes, o gado e até os animais selvagens que encontrávamos no belo território português?

Que é feito da nossa natureza e da harmonia e calma que lhe estavam adjacentes?

Quando olho ao meu redor, apenas me deparo com esses pedaços de metal aos quais chamam telemóveis e que aparentemente são interessantes o suficiente para as pessoas perderem horas a interagir com esses pequenos ecrãs mágicos.

Na minha altura, as pessoas gastavam o seu tempo uns com os outros em contacto com a natureza. Desta forma, a gente era feliz e deixava que a serenidade que provinha de tudo que era natural nos invadisse e nos proporcionasse uma vida agradável.

Dizei-me vós agora como é que o mundo vive neste turbilhão?

Já ninguém passeia pelas ruas, tudo corre. Já ninguém conversa quando passa por alguém, não entendi muito bem, mas parece que agora se fala sozinho para um objeto misterioso que se coloca nas orelhas. Já ninguém apanha fruta fresca das árvores, preferem ir antes a grandes edifícios onde já está tudo embalado e sem qualquer sabor autêntico. Como é possível a população viver assim?

Pelo que constato, já ninguém sabe apreciar as simples coisas da vida.

Sem pequenos momentos como a degustação de uma maçã acabada de apanhar do pomar, uma caminhada pelo bosque, o sentir da chuva a cair levemente nas faces e o ouvir encantador dos pássaros a chilrear alegremente, como é que alguém consegue dizer o que é a realidade?

Só nestas ocasiões, quando nos deixamos invadir pelos sentidos, é que podemos compreender o que nos rodeia.

Infelizmente, penso que estas gerações de agora não dão a devida atenção à visão, ao paladar, à audição, ao tato e ao olfato. Elas preferem usar o pensamento e, para tal, são constantemente influenciadas pelo mar de informação que lhes é fornecida pelos novos dispositivos digitais. A meu ver, toda a gente está formatada para pensar da mesma maneira e para avaliar os acontecimentos através do pensamento e não da forma certa, que é ao utilizar as sensações.

O que mais me desconsola é ver a forma como tratam a natureza. Será que elas compreendem verdadeiramente a importância que esta tem nas nossas vidas? Vejamos o exemplo da poluição. Para qualquer lado que me vire, encontro este material tão nocivo para o meio ambiente. Aquele ao qual chamam “plástico” e utilizam para fabricar quase todos os objetos que existem, mas que, “ao fim e ao cabo”, não se sabem livrar dele, pois está todo no chão ou nos oceanos.

O meu desejo é que as pessoas encontrem o sentido para as suas vidas e que se apaixonem pela simplicidade dos momentos mais pequenos que, à primeira vista, podem parecer insignificantes, mas que fazem toda a diferença.

Temos de nos recordar que o facto de existirmos já é algo maravilhoso e tudo o que interessa é vivenciarmos o mundo através das sensações.

 Matilde Carvalho (12ºC)




Domingo, 15 de novembro de 2020

 

Em pleno século XXI, mais de cem anos depois da minha morte, cá estou eu, de volta a Lisboa. E não podia encontrar na Terra maior desgosto que este...

Achava eu que, com todas as geringonças deste Mundo moderno, me iria deparar com tanta coisa nova.... Imaginava os meus olhos sorrir, num momento de histeria e felicidade, numa explosão de sensações vívidas, enfim, que falta sentia eu da linda realidade! Mas qual não foi o meu espanto quando me deparei com uma cidade sem movimento, sem uma única alma deambulante. Tentei perceber o que se passava e encontrei meia dúzia de pessoas, todas com uns tapulhos estranhos na cara, o que me deixou ainda mais confuso – como haveria eu de apreender a realidade sem ver os rostos das pessoas, sem ver os seus sorrisos e sem sequer os conseguir ouvir, com aquelas coisas que lhes abafavam a voz? Andei mais algum tempo e vi, dentro de uma loja qualquer, um objeto retangular, onde passavam algumas imagens e se podia ler (passo a citar) “Notícias sobre o vírus”; logo percebi que há doença por aí à solta.

Bem, não podia ter escolhido pior altura para o meu regresso, mas, doenças à parte, já não reconheço a cidade onde vivi. Tudo parece cinzento, nada capta a minha atenção... No meu tempo, não havia melhor coisa do que deitar-me na relva, contemplar o Sol, as montanhas, as flores, enfim, sentir a realidade – nos dias de hoje, quase nem relva há! Só se vê carros, prédios, estradas, tudo a preto e branco (podiam, pelo menos, usar cores mais vivas, para enriquecer a paisagem), tudo igual, tudo sem vida. Como pode esta gente viver sem sentir a espontaneidade da Natureza?

Ah, estes dias de hoje... Mas pronto, lá me vou, que todo este pensamento me traz um maior desgosto ainda. Pode ser que, um dia destes, tudo mude e encontre a minha Lisboa mais parecida com aquela que deixei quando parti.

 

Caeiro

Maria Fontão (12ºC)



Cores

 

Este azul incolor

Que pinta um quadro no meu olhar

Acolhe a terra que eu sou,

Serpenteia o som das gotículas,

Fim do seu próprio fim.

 

Descanso inundado pelo verde,

O verde da paisagem,

Este verde que tinge uns cordões

Que atam um cérebro livre,

Vermelho do pensamento.

 

Mas dói a chama viva.

Ela surge, cresce, alastra, domina

A floresta dos que se deixam queimar

Por um mundo que não é o meu.

 

                                                      Fernão Veloso (12ºC)


terça-feira, 15 de dezembro de 2020

 

Os fins de semana continuam

a permitir ecos daquilo que vamos vivendo.



Porque hoje é sábado (12 de dezembro 2020)

Novamente a banalidade de um sábado de confinamento a partir das 13H.

Fazendo jus ao provérbio “depois da tempestade vem a bonança”, o dia amanheceu com luz, um sol fraquinho e pontuado de quando em quando com o chilreio de um passarinho.

Digno de reparo hoje, foi a forma lenta e compenetrada com que um senhor, sentado numa das mesas do café e aparentando mais de 70 anos, deslizava o dedo num telemóvel touch srceen. Questionei-me: seria Facebook? Jornal online? E porque estava ele com a máscara pendurada só numa orelha se o café já estava bebido?

Na padaria outro reparo a propósito do uso da máscara. Entra um senhor, sexagenário, sem ela colocada e o empregado, um rapaz novo, alerta-o. Resposta em tom agressivo, quase a rondar a ameaça “Já sei, já sei. Já vai!”. E foi com muita calma que retirou a máscara do bolso do casaco e a colocou.

Compreendendo o inusitado da medida e a dificuldade que é falar e respirar com tal adereço, custa-me a aceitar que estas pessoas se não dêem conta do risco que estão a criar para elas e para os outros…

Já em casa e à janela, observo o movimento de carros e de gente na entrada e saída do Braga Parque. Há compras para fazer, bem sei, mas a nossa saúde e bem-estar não serão prioritários?

Numa altura em que há máquinas para fazer tudo e que tudo (ou quase) se pode comprar feito, resolvo partir umas folhas de couve para o caldo verde. Aprendi que por estas bandas se diz segar as couves, mas eu continuo beirã dos quatro costados e minhota emprestada! E embora haja outro provérbio que diz “Em Roma sê romano”, no que toca à linguagem, certas palavras e expressões minhotas não conseguem entrar no meu vocabulário.

Voltando à verdura, foi com muito cuidado, com uma faca de cortar legumes não profissional e com a imagem da minha mãe e do meu pai a fazer esse trabalho, que parti, digo, seguei a couve galega.


Nota de 0 a 10?       

PS1: Já agora, na gíria gastronómica diz-se cortar a couve em juliana.

PS2- Embora eu goste mais de “meter a mão na massa” e só use as máquinas e embalados em situações especiais, não resisto a divulgar esta receita dos tempos modernos!

Bimby

Ingredientes

  • Azeite, a gosto
  • Alho em pó, a gosto
  • 250g de preparado para caldo verde (couve galega)
  • Manjericão, paprika  e pimenta preta a gosto

Preparação

  • Coloque o azeite no copo da Bimby e o alho em pó, programe 4 min | temp 100º C | vel 1
  • Junte o preparado para caldo verde (couve galega) e programe 5 min | temp 100º C | vel Colher Inversa
  • A meio tempo tempere com manjericão, paprika e pimenta.
  • Verifique se ficou cozida a couve e retire. Caso contrário programe mais alguns minutos à mesma temperatura.

Rosa Sousa




O inusitado quotidiano de demasiadas famílias.

 

Já nem sei bem quem sou… Contudo não duvido para onde vá!

Professora? Mãe? Mulher? Pasteleira? Amiga? Vizinha?

Anti – Covideira?

 

Pois bem, vejamos…

Alguém cá por casa queixa-se de dor de cabeça, apenas me ocorre o óbvio, aconselhar a medicação para a sinusite que está sempre presente quando isso acontece. Porém, uma hora depois já o Dito-Cujo sai de máscara aviada, direção Braga para realizar o teste à Covid-19, sendo que, no dia seguinte, a sentença cai: positivo!

Plim: mail da escola.

Nunca mais o vimos, só por videochamada, instalou-se no andar de cima, álcool gel numa mão, spray de lixívia na outra, já temo a overdose, até acho que entrou pela janela…

A partir desse momento, o primeiro andar virou central telefónica para todos os contactos recentes.

E nós cá em baixo?

Plim: mail classroom para o filho mais velho.

Começa a engrenagem SNS para a mãe, cartão de cidadão, número de segurança social, idade – já agora desde quando se pede a idade a uma Donzela como eu? – código daqui, senha dali, mais umas quantas questões. UFA! Já agora, tenho dois filhos comigo, que faço?

Bimba, novos telefonemas SNS, mais uma hora, novos códigos e senhas para cada um deles. Não me perguntem a quem pertencem todos esses benditos números que surgem no meu telemóvel, é que nem sou da área dos números!

Plim: - Professora, pode rever a passagem da segunda parte para a expressão oral?

Só me lembro daquelas pessoas sós, com alguma idade, que mal conseguem ver os números no telemóvel. Como conseguirão fazer estas chamadas? Ficamos em espera, marque 1, marque 2, vá tomar um café que volto já, marque 3, marque 4, que música horrorosa, um Vivaldi ou um Chopin, não?

Facto é que, dali a duas horas, sob chuva torrencial, estamos na Serra do Carvalho, os três de máscara, direção testes à COVID-19.

- Mãe, dói muito?

- Achas? Só sentes umas cócegas, nada demais.

- E a zaragatoa não chega ao cérebro?

- Era preciso que o tivesses Mano!

- Calem-se ou abandono-vos já aqui em pleno monte…

- Sim, sim, fugimos assim ao teste e apanhas-nos no teu regresso.

Plim: - Professora, pode voltar a explicar o que é livre arbítrio?

«Help! I need somebody!»

Passarei os pormenores dos testes, são apenas cócegas especiais…

No dia seguinte, após a delimitação de áreas estratégicas pela casa, régua, compasso e calculadora em punho, cai nova sentença, o petiz mais novo está, ele também infetado. Parece mentira, aquele que mais genica apresenta, sempre ligado à ficha.

E agora?

Agora, aproveita-se o Confinado de cima para proceder às dezenas de telefonemas/contactos pelo facto do pequenote ter testado positivo.

Trim-Trim: telefonema da Amiga A.

Quanto aos dois restantes, mãe e filho mais velho, apesar de ainda pequeno, começam a dividir as tarefas entre eles: cesto de roupas improvisadas para todos, casas de banho individuais, apenas partilhada para os negativos, louças para aqui, borrifadela álcool gel dacolá…

Problema Mãe: como jogamos à PS4 se não está na área do Mano?

Empurra sofá, desloca móvel, fita vermelha no chão…

Que susto, voa um avião de papel reciclado do andar de cima ensopado em desinfetante a pedir algo para comer dizendo que, se não padecer do vírus, morre à fome!

Trim-Trim: Telefonema da Amiga B.

Trim-Trim: Telefonema da Querida Colega da Escola que me ajuda tanto.

Calma, muita calma.

E a escola?

Trim-trim: Telefonema da Direção da minha escola.

- Vamos arranjar uma solução, não te preocupes!

Pois, no dia seguinte, os dois manos têm teste, os meus alunos têm aulas, supostamente comigo…

Telefonemas à direita, telefonemas à esquerda, copo de chá de limão com mel pelo meio.

Plim: questão dos alunos via classroom

Tudo se resolve. Aulas online, outra vez, não!

- Mãe, alguém tocou à campainha.

Dirijo-me ao portão: é a vizinha a trazer o papel da baixa. Trabalha no Centro de Saúde. Palavras de força, muito carinho e ânimo. Muito agradecida.

Dia de aulas:

Pequeno-almoço tomado. O Vizinho de cima já em limpezas matinais e desinfeções intensas, um maravilhoso cheiro a álcool gel paira no ar.

O filho positivo de tablet já a aguardar o teste de estudo do meio, muito nervoso porque não está ali a professora, na área vermelha, a cor foi mal escolhida, deveria ser verde; o filho negativo no seu recanto da copa, de classroom aberta e a maldizer das tarefas «para fazer» que os professores agendaram para aquela manhã, mesmo não tendo a disciplina naquele dia!?!

Os meus dois polos da pilha cá de casa, fantástico! E eu, com um simples:

- Meninos, portem-se bem, sejam responsáveis, felizes e cumpram com todas as vossas tarefas. Qualquer dúvida, façam videochamada com o pai que eu tenho aulas no escritório.

Plim: mail da Professora Titular, chegou o teste de Estudo do Meio.

Que susto, uma corda quão serpente curiosa, desliza pelas escadas abaixo com um cestinho feito de papel reciclado com um mini-cartaz a dizer: Não me toque, mas leia-me!

- Tenho fome!

Plim: horas da aula via meet/classroom.

Correria direção cozinha, preparação de um pequeno almoço frugal com entrega uber ao cimo das escadas e triplo salto para a cadeira do escritório. Grande sorriso, madeixas rebeldes viradas para trás, apesar de saber que continuarão sempre para a frente…

Plim: grupo do whatsapp – Professora, já podemos entrar?

Tenham a bondade, chove copiosamente lá fora, mas as janelas estão escancaradas, quem sabe se o vírus não estará farto de nós e decide ir dar um passeio.

- Bom dia turma! Como estão? É que deste lado só tenho acesso a uma parede branca.

- Vamos já professora, não se preocupe.

- Bom dia Colega, grata por estar daí desse lado a prestar-me apoio.

Câmara para a direita, olha vi o Paulo de telemóvel atrás da mochila, câmara para a esquerda, o José continua virado para trás à conversa… Não, que horror!

- Querida Raquel, mostra-me lá o quadro, por favor.

A minha cara em tamanho gigantesco na tela a dar a aula, até «Regresso ao futuro I, II e III» teriam maior sucesso, sem dúvida alguma.

Pondo de parte aquela visão aterradora, decidi ser eu, dar a aula, explicar o poema, refilar por causa das notas obtidas nos testes, ouvir as apresentações orais e tecer comentários o mais construtivos possíveis, pôr a Senhora Professora presente na sala ao barulho, solicitar-lhe opinião.

Não fossem alguns cortes e falhas da net, poderia até afirmar que foi uma aula normal.

Trim-Trim: Os Amigos C tocam à campainha para entregar umas natinhas e umas iguarias que jamais esperaríamos nesse momento. De coração cheio.

As aulas continuam. Outra turma, outra professora a apoiar-me, outros alunos a reagirem com a maior normalidade, como se já procedêssemos desta forma há décadas. Uma educação tremenda, um sentido de humor que permite quebrar o gelo do ecrã, a concentração no trabalho…

Não, não pensem que quero continuar confinada!

Quero poder retribuir a todos aqueles que me estão a dar: o respeito, a solidariedade, o carinho, a amizade, os sorrisos, os telefonemas, o empenho, a pseudo-normalidade, a sorte de continuar a trabalhar…

Quero poder ver a três dimensões sem óculos virtuais e, apesar de ainda não ter a possibilidade de distribuir aqueles abraços e aquele «toque» de que falava um aluno meu, quero voltar…

Plim: um vídeo no whatsapp no grupo família: o Dito-Cujo do andar de cima encenou uma atuação a cantar «Soltem o Prisioneiro, sou prisioneiro…»

                                                                                                                    Helena Bártolo


segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

 Amigo

Maior que o pensamento…

 

Afonso não respondeste à minha última mensagem, não era teu costume, e fiquei desapontado. Sempre foste rápido e habilidoso na resposta. Desta vez a resposta tardou...e eu temi. Fiquei agora a saber, pelo Zé, que não mais vais responder às minhas mensagens.  Deixas-me só neste exercício inútil de escrever mensagens sem resposta. Não perdi, apenas, uma mensagem perdi um amigo insubstituível como insubstituíveis são os grandes amigos. Não basta, para me confortar, o exercício de memória que faz com que os amigos se perpetuem maior ou menor seja o seu reinado. Há, na brasileira, uma mesa que não partilho mais e quando lá voltar vou pedir dois cafés um para mim outro para ti. Precisava de mais, de muito mais. Queria mais uma vez ver os teus projetos, esboços, que me confundiam, que me aturdiam, que tentavas em vão explicar-me, mas que invariavelmente davam certos. Nunca foste fácil se o teu caminho te mandatava “é por aqui”. Nunca cedeste à tentação do caminho fácil, ou do atalho próximo. Poder-te-ia dizer que a tua aposentação roubou à escola um grande pedaço de inspiração que nunca mais foi preenchido. Poder-te-ia dizer que lá deixaste um vazio e grande grupo de amigos que nunca te esquecerão. Mas tu, isso, já sabes.

 Fernando Castro



In memoriam Afonso



Rosa Sousa


sábado, 12 de dezembro de 2020


 Sobre a vida


Parece-me que continuamos equivocados, parece-me que pouco aprendemos.
Um vírus veio refrear a fúria dos dias e mostrar como somos suscetíveis a  ameaças repentinas e globais. Por um tempo pareceu parar-nos, levando-nos a refletir e a refrear as correrias diárias. Mas ficámos em casa e depressa quisemos sair. Lamentámos as vítimas e ainda mais depressa as esquecemos. Tememos o desconhecido para no segundo seguinte voltarmos ao egoísmo do "só acontece aos outros" (egoísta e enganoso pensamento)!
Afinal, mudámos o quê? Mudámos em quê? Pouco ou nada. Ainda não foi desta que nos recentramos. Ainda não foi suficientemente duro o embate...Ainda não assumimos a fragilidade da vida humana e a nossa insignificância face a um ténue fio que até um invisível vírus pode cortar. A vida é mesmo isto, uma caminhada incerta e suspensa. Mas ainda não o quisemos perceber, pois não? Parece-me que não. Parece que continuamos a querer viver o engano.

Rosa Maria Martins


sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

 











Primeiro foi a incredulidade. Muito doente, o Afonso?!!Depois veio a pior das notícias. A sua saída desta vida, deste palco…

Na tarde de ontem (5ªf, 10 de dezembro) chorei. Uma parte da noite passei-a a rever fotos, a reviver os tantos e tão maravilhosos dias, anos em que, sobretudo na escola secundária, conversámos, partilhámos leituras, turmas difíceis (ai aquele CEF!!), dificuldades com as Tic; assistimos ao desabrochar de talentos escondidos que só tu, sempre com grande perspicácia sabias descobrir  e com grande mestria e carinho, orientar e levar ao palco. Aos alunos ajudaste a ler, a dizer, a refletir, a memorizar, a corrigir, a insistir, a melhorar; a mim, a nós espetadores, a encher-nos o coração, a inquietar-nos também, a aplaudir de pé , a pedir  mais, mais.

Foi um gosto, um privilégio ter sido tua colega (sempre elétrica, dizias-me, com um sorriso irónico!), ter estado quase sempre nas estreias dos teus espetáculos e até em palco. “É o que eu lhe digo, o mar tem varandas…” Nunca mais esqueci este pequeno texto da Luísa Dacosta no ano de 1998, creio. Não esquecerei nunca a calma, a serenidade, a contenção, a gentileza e tantas outras qualidades demonstradas ao longo do nosso quotidiano na escola e na cidade de Braga.

Hoje fui despedir-me de ti. No caminho vieram-me à memória alguns versos de um poema de Paul Verlaine. Tomando-o por modelo, deixo-te o meu sentir, a minha tristeza.

“Il pleut dans la ville, comme il pleut dans mon coeur!

Até um dia num outro palco, Afonso.

Rosa Sousa



Aprender a ler, a saber estar, a interpretar, a saber ser são notas da pauta do teatro da Vida. E nas oficinas de teatro, o professor Afonso permitiu que tocássemos estas notas até compormos uma melodia e descobrir o belo, a Arte.

Foram muitas as aprendizagens e as alegrias experimentadas. Quase tantas como o nervosismo que antecedia o brilhantismo de cada apresentação com que nos brindava o “nosso maestro/encenador”. Sim. Teatro e música eram companheiros inseparáveis da poesia de cada texto. Defensor de que a beleza da vida reside em aprender a saborear cada momento sem desobedecer aos valores morais que nos são intrínsecos e de que há palavras que têm o canto inspirador da vida e que cabe a cada um de nós descobrir inspirou-nos muitas vezes.

Com talento transformou vivências, melhorou vidas, criou atores. Cada unidade de tempo vivida, particularmente nos ensaios, era uma coisa milagrosa que acontecia. E a aceitação do aprendido uma casta descoberta. Obrigada, Afonso.

Não tendo podido estar presente na tua despedida, estiveste presente nesta minha ausência…

Lurdes Silva



«O mar não é tão fundo que nos tire a vida...» Lembras-te, Afonso? Era assim, cantando, que eu começava a primeira apresentação que fizemos na nossa escola há 22 anos. E, ontem, pensei muito em ti. Nas nossas boas conversas, por vezes mais acesas, sobre as coisas importantes da vida. E pensava que, efectivamente, quando se entrega a vida como tu a entregaste nem o mar, nem o que quer que seja a tiram. Pois ela permanecerá em tantas vidas tocadas. Na memória de tantos momentos bons e belos. 

ps. Certamente, ao passar n'A Brasileira, olharei para a tua mesa e ver-te-ei, de lá, a olhar o mundo e a pensar como o (re)apresentar!

Margarida Corsino

 

Ao Afonso Fonseca

 

“Se é mesmo verdade o que os sábios nos dizem e se existe um lugar que nos acolhe (depois da morte), talvez o amigo que acreditamos extinto nos tenha apenas precedido.”

Séneca – “Cartas a Lucílio”

 

Nesta hora de perplexidades, de dor e consternação, onde as palavras acertadas para transmitir o que nos vai na alma parece que se escondem, acreditamos que o Afonso Fonseca está “em paz” e, naturalmente, confiamos que, onde quer que esteja, continuará rodeado de livros, de poesia, de arte, de teatro e sempre disponível para nos acompanhar nesta tarefa árdua de aturar o dia-a-dia, pois, tal como dizia Pessoa, "o valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis."

 Descansa em paz e até já!...

 José Ramos

 Porque hoje é sábado.

Sábado, 5 dezembro de 2020, sem covid e em Braga

Lembrei-me do comentário de um leitor no jornal Público que questionava a pertinência da coluna diária de Miguel Esteves Cardoso que assenta em deambulações mentais, devaneios, banalidades.

Pois bem, também eu hoje vou escrever sobre a minha vivência matinal neste 2º sábado de recolher obrigatório. Uma banalidade.

Despertada pelo telemóvel a horas decentes para as compras de fim de semana, resolvi virar-me para o outro lado da cama e preguiçar só mais cinco ou dez minutos.

A mente e o corpo traíram-me e despertei passava do meio-dia. Higiene à gato, roupa leve e quente, um pequeno almoço engolido à pressa, dois lanços de escadas descidas também à pressa e eis-me na rua.

Compro 1º os jornais na bomba de gasolina, depois peço pão e um café na padaria ao virar da esquina, um saco de água quente na loja dos trezentos depois de caminhar vinte ou trinta metros, carne e fruta no talho mesmo em frente e, por fim, peixe e legumes, três portas mais à frente.

Quem precisa de super ou hipermercados ?

Há muitos anos que tenho esta rotina. Em apenas duas ruas consigo ter à mão quase tudo o que preciso.  Antes da pandemia, com mais calma e sem máscara!

Volto para casa mesmo em cima das 13h. Olho para ambos os lados da rua e reparo que todas as lojas estão já fechadas. Na estrada passa um carro onde dantes os autocarros se fartavam de buzinar por causa do estacionamento em segunda fila. À minha frente, uma senhora caminha com compras e atrasada como eu. Começa a chuviscar. Apresso o passo e dou comigo a pensar como estamos a cumprir tão bem as restrições!

 Até quando?

Até quando a tolerância? Até quando o medo?

Com medo de causar um mal maior e depois de muito refletir, acabo de decidir não viajar no Natal. O calor da consoada vai ser pelo Skype.

Haverá um lugar à mesa para uma máquina. Abençoada seja, malgré tout!

Rosa Sousa

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

 

Vale a Pena Ler/

Vale a Pena Saber

 

Ciência, cientistas, livros, cheiros, experiências, biblioteca, sala de aulas e pessoas!...Eis a mistura perfeita para que a noite do dia 19 deste inaudito mês de novembro fosse agradável e ligada, mais uma vez, aos Livros, com Livros e, sobretudo, com Pessoas.

A alma da atividade foi, como é usual, a nossa professora bibliotecária, Rosa Sousa, que preparou uma “aula” de Cultura e Comunicação para simpáticos e participativos formandos do Centro Qualifica do nosso Agrupamento de Escolas.

Começámos com uma incursão pela música, pois o cientista/poeta Rómulo de Carvalho/António Gedeão tem poemas musicados que todos conhecemos – Pedra Filosofal e Lágrima de Preta, por exemplo.

Passamos aos livros. Muitos e tão interessantes! Ciência Horrível; Cosmos; Grandes Cientistas …, um variado leque, portanto.



Da biblioteca à sala de aula, para explorarmos breves biografias de cientistas insignes de todas as áreas e de todos os tempos.

 


Louis Pasteur - (1822-1895) químico e bacteriologista francês. Entre os seus feitos mais notáveis está a criação da primeira vacina contra a raiva. Foi mais conhecido por inventar um método para impedir que leite e vinho causem doenças, um processo que veio a ser chamado pasteurização, em homenagem ao seu sobrenome.

 

      

Carlos Fiolhais

Físico, professor universitário e ensaísta português. É um dos cientistas e divulgadores de ciência mais conhecidos em Portugal.

Publicou 42 livros, sendo o mais conhecido a sua obra de divulgação científica "Física Divertida" e "Nova Física Divertida"

 

E algumas curiosidades, como esta de termos entre nós, em 2004, o primeiro português a investigar o grafeno, forma bidimensional do carbono, com potenciais aplicações em eletrónica, fotónica, materiais compósitos, sensores e saúde. E ainda de ter sido em 2018 o cientista a trabalhar em Portugal mais citado no mundo por outros investigadores: Nuno Peres, físico da Universidade do Minho.

Ou ainda, recuando um pouco no tempo, ficar a saber que Isaac Newton passou longos momentos a olhar diretamente para o sol e depois piscava os olhos para ver os efeitos das cores resultantes dessa “experiência”. A consequência foi uma cegueira temporária. Também não era um bom aluno, não se dedicava aos estudos e não demonstrava interesse pela escola, passava horas distraído, pensando em matemática, filosofia e outros assuntos que o interessavam.

 É dele a frase: “O que sabemos é uma gota; o que ignoramos é um oceano.”

E a sempre inevitável e importante ligação da Arte e da Ciência, que não são, nem nunca foram incompatíveis, como sabemos.

"Albert Einstein" pelo pintor norte-americano contemporâneo Derek Russell


E com todas as cautelas, depois de desinfetados os cartões e as mãos, passou-se ao jogo de memória que desencadeou um tão grande entusiasmo, que acabou por ir com uma formanda para jogar em casa com os filhos e marido.

 



     

 Por fim, depois de duas horas que passaram sem se dar por isso, ainda houve tempo para uma experiência sensorial olfativa.  Como se sabe, a perceção dos cheiros tem importante papel na evolução das espécies, pois é através dos odores que muitos animais captam a presença da fêmea, de inimigos ou das presas. Para nós, humanos, os dois grandes grupos em que podemos situar os odores são os agradáveis e desagradáveis, embora o nosso nariz seja capaz de sentir até dez mil cheiros (reduzido com a idade, a exposição a químicos e à poluição).

Todos sabemos que sem olfato não há prazer em comer. O repertório da língua limita-se a salgado, doce, amargo, azedo e umami – o gosto do monoglutamato de sódio, o aji-no-moto. E quanto aos perfumes, eles podem ser florais, doces, amadeirados, cítricos ou herbais.

Diz-se que as mulheres sentem mais os cheiros que os homens e que a interpretação dos cheiros é sempre subjetiva.  Curiosamente, foi o que aconteceu nesta sessão. Os cheiros mais intensos e mais conhecidos foram facilmente identificados por todos: canela, café, acetona, chocolate. Já cravinho, lúcia-lima, orégãos, foram identificados pelas senhoras e o cheiro a gel de banho e pó de talco apenas pelo senhor. Explicação: o recente contacto com a sua bébé de meses.

E foi assim que terminou este cheirinho pela literacia científica, com a insistência na necessidade de não abandonarem o prazer de devorar um bom livro, sentir o aroma do papel e tinta de uma revista ou jornal!

                   

Adriana Silva

    Rosa Martins

   Rosa Sousa



Comemoração do Dia de S. martinho

O Magusto no JI de Simães

Tal como tem vindo a acontecer em anos anteriores, no jardim de Simães deu-se continuidade às tradições, apesar de este ser um ano bastante atípico, devido a toda esta conjuntura que, de uma ou outra forma, nos impõe restrições impedindo-nos de realizar as atividades que desejaríamos. Nós, por cá, ainda conseguimos “saltar à fogueira” e, também, comer as castanhas assadas ao ar livre. Pensando bem, acho que somos privilegiados pelo local em que estamos inseridos.



Lúcia Dias

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

E fechamos a edição sobre o Modernimo...

Agradecemos todos os contributos e todas as leituras!

 

«NOTÍCIA DE ÚLTIMA HORA: 
Rendemo-nos, fechamos esta nossa última edição com uma certeza - o Modernismo vingará e será relembrado para todo o sempre, as tecnologias continuarão incessantemente a evoluir e o Futuro só a vós pertence!
Gratos por nos terem acompanhado nas nossas leituras nestes tempos conturbados, sentimo-nos obsoletos, também nós tentaremos renascer das nossas cinzas, com muito ainda para aprender com estes documentos que aqui partilhamos.»

Para ouvir o podcast aqui


segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Não restam dúvidas: 

o modernismo chegou mesmo!


Já não há retorno! Após o caos e as constantes reviravoltas que se têm vindo a viver pela capital e pelas grandes cidades do país, admitimo-lo! Decidimos ir ver uma vidente para que nos elucidasse acerca do futuro deste pseudo movimento modernista. Saímos de lá sem fôlego, a sua bola de cristal não só nos deu a conhecer uma carta secreta de Fernando Pessoa a uma namorada desconhecida chamada Íris, e não Íbis, como também nos facultou um quasi encontro de outra dimensão. Vislumbramos, na sua bola, um indivíduo vestido de forma muito estranha que parecia vir do futuro, um certo Rodrigo Gomes que tomava notas e conseguimos lê-las através da bola de cristal, preferimos nem dizer mais nada, demasiado assustador!
Teçam as vossas próprias opiniões.



Íris Castro (12ºB)





Modernismo: O futuro do passado

Modernismo… O que é isso? Um movimento cultural, pelo que entendi da aula. Se bem que a professora não nos deu muitos detalhes, realmente quis tornar isto um desafio para todos! “Escrevam sobre o Modernismo. Utilizem o formato textual que bem vos apetecer” disse… E agora, cada um que se desembarace como puder e souber. Sabendo eu que a maior parte dos trabalhos iriam ser uma imitação dos primeiros dez links que saltam à vista ao pesquisar o tema na internet, optei por fontes de informação mais seguras e originais. Resolvi ir à biblioteca da cidade. Há uma primeira vez para tudo, não é mesmo?!

Mal terminaram as aulas, dirigi-me ao tal local onde expõem os artefactos literários. Uma caminhada custosa, uns bons cinco quilómetros. Não havia ainda chegado a meio caminho, e o meu pensamento já remoía a ideia de ir para casa e retirar a informação da segunda página do Google, de forma a parecer menos óbvia a minha trapaça. Foi num destes momentos de introspeção e mesura de valores morais, que me distraí completamente do meu propósito com o que me parecia ser uma feira, mas bem longe do seu local habitual. Cresceu em mim uma inquietação incessante, aproximei-me. Quanto mais perto estava, mais me deslumbrava. Era tal e qual as feiras que se veem nos filmes americanos: inúmeras tendas com jogos, atrações e comida. Quase podia jurar que nada estava lá no dia anterior! Fui deambulando pelos corredores improvisados, comprei umas bolachas e bebi um sumo de laranja. Não tardou até estar perdido no meio de todo aquele alvoroço!

“Venha! Fuja daqui… vá para longe! “ouvi eu à distância. Parecia de propósito, não havia nada que eu mais quisesse naquele momento. Então, corri, seguindo a voz que eu supus ser a da “salvação”. Qual foi o meu espanto no momento em que percebi que não iria para longe no espaço, mas sim no tempo. Deparo-me com uma barraca com um cartaz que dizia: “Experiência de realidade virtual!!! 10€ apenas; levámo-lo ao passado ou ao futuro!”. Quase que me enganavam com a do futuro. Como seria possível ir ao futuro, se este ainda não aconteceu? Pois! Em contrapartida, intrigou-me a ideia de visitar o passado! Pensei logo se daria para “visitar” o tempo do Modernismo, porventura adiantar trabalho, já que estava a perder tempo na feira. Uma pequena procura no telemóvel e… zumba! Já está! O ano de 1922 vai servir, pertence à primeira metade do século XX. Entrei e pedi: “para 1922, Lisboa, por favor”. Estendi mão ao bolso e tirei uns muito poupados quinze euros, dos quais ainda sobraram sete, visto que consegui regatear um pouco com o indivíduo do balcão. Deram-me uns óculos especiais e uma espécie de luvas, penso. Não sabia para que serviriam, apenas que cheiravam um pouco mal, então mantive as mãos afastadas da cara. Enfiaram-me de seguida numa salinha, quase ao empurrão.

As luzes ligaram-se e lá estava eu, a grande Lisboa, a capital! Tive imediatamente a certeza de que “estava no passado”, a minha visão tinha mudado. Parecia um filtro vintage do Instagram, daqueles que os Influencers topo de gama usam sempre que vestem calças largas, ou seja, às segundas-feiras. À minha frente, empoleirava-se um quiosque, daqueles redondos, no meio da rua, com uns acabamentos dourados na cúpula. Bonito, de facto. Na parte do atendimento encastelavam-se cerca de uma dezena de revistas. Fui fazendo um novo monte com elas enquanto lia os headlines: “Modernismo: a nova cultura. A reexaminação do tudo e do todo!”; “O domínio moderno do real em relação ao subjetivo. A valorização da Razão!”; “A euforia do moderno: Modernização desmesurada causa ansiedade e conflitos na sociedade.”; “Autoconheça-se! Psicanálise freudiana: aceda aos confins da sua mente.”; “Pintura moderna: reveja a exposição “Humoristas e Modernistas” (Porto, 1915)”; “Francisco Franco de Sousa e Leopoldo de Almeida: escultores e arquitetos do nosso tempo; O Pavilhão Expositivo do Mundo Português e a Igreja de Nª Srª  de Fátima.” Dei por mim num mar de rosas. Estava ali tudo o que precisava para o trabalho, todas as vertentes do Modernismo, as suas caraterísticas e as pessoas que as representavam. Só não tinha o tempo necessário para ver todas as informações. Posto isto, tentei a minha sorte e peguei numa só revista para analisar com mais atenção. Era uma nova, de seu título: “Charles Baudelaire: o início da literatura moderna?”. Folheava e lia, até que um nome sobressaiu. O senhor Fernando Pessoa, o poeta que é fingidor, não mentiroso, que é um gato, uma criança, uma flor… ou que pelo menos o desejava. O artigo falava das primeiras publicações de Pessoa ortónimo na revista Orpheu, em 1915, e de como foram mal recebidas. Pobre homem moderno, foi dos primeiros! Esqueceu o passado, o ultrapassado, comprometeu-se com as experiências da vida moderna e publicou poemas complexos, difíceis demais para a sociedade retrógrada que o acompanhava.  Foi um inovador. E, de repente, tudo preto.

Durou tanto quanto oito euros puderam pagar. Retiraram-me da sala, devolvi o equipamento e saí da tenda. Durante algum tempo não consegui ver muito bem, devido à diferença das cores, mas rapidamente passou. Quem diria que um imprevisto viria a ser tão favorável, que me permitiria realizar um trabalho certamente moroso. Já sabia bastante sobre o Modernismo. Estava pronto a começar. Afinal de contas, a minha primeira visita à biblioteca não foi naquele dia. Rapidamente fui para casa e, enquanto tinha a memória fresca, escrevi…

 

Rodrigo Gomes (12ºB)